domingo, 5 de fevereiro de 2017

Crítica: "O.J.: Made in America"

O.J.: Made in America
Documentário
Data de Estreia no Brasil: 4/07/2016 (diretamente pra TV)
Direção: Ezra Edelman

Distribuidora: ESPN Brasil

         Não se engane, “O.J.: Made in America” não é um mero documentário biográfico sobre uma das maiores personalidades da história dos Estados Unidos. O longa dirigido por Ezra Edelman é um estudo sobre violência, sobre a história da brutalidade policial em Los Angeles que subjugou, perseguiu e espancou indivíduos negros considerados mais perigosos que as demais pessoas da sociedade apenas por possuírem um número maior de melanina na pele. Se você está interessado em conferir esta obra, mas teme o número de horas que o filme possui (450 min/ 7h:30min), saiba que cada detalhe contribui para a construção trágica da história de O.J. Simpson, um herói do futebol americano que foi acusado de matar de forma brutal sua ex-esposa Nicole e um amigo desta,Ronald Goldman.

         Construindo seu argumento (que procura gerar debate e nunca respostas fáceis) a partir de uma retomada de décadas da história da figura de Orenthal James Simpson e da violência acometida aos negros nos EUA de forma paralela, a obra surpreende ao constatarmos que sua construção se dá a partir da estrutura clássica de atos que são esticados proporcionalmente à quantidade de informações que o filme reúne. Assim, ao longo do filme vamos percebendo como o histórico racista da polícia é utilizado para amarrar a estória que o longa quer contar, seja no histórico do “protagonista” biografado, seja no comentário acerca da mídia sensacionalista, ou mesmo na estratégia jurídica adotada pelos advogados de defesa. O diretor é hábil ao conseguir estabelecer tanto um olhar atencioso e compreensivo quanto às motivações raciais que levaram a comunidade negra a clamar pela liberdade de O.J., ao mesmo tempo em que emprega fatos e argumentos que salientam a construção problemática da psique de Simpson, um marido abusivo que perseguia sua ex-esposa com um ciúmes doentio.
         Nesse ponto, o filme brilha com a complexidade que consegue transparecer do ex-atleta, mostrando todo o esforço por trás das conquistas de O.J. como jogador de futebol americano, transformando sua derrocada em uma narrativa dolorosamente previsível (no bom sentido narrativo) - e, assim, é interessante perceber como novamente o filme se utiliza de uma estrutura clássica de roteiro para abordar a história de Simpson, já que o longa se estabelece claramente em uma construção de "ascensão, auge e declínio", porém sem transparecer qualquer sinal do seguimento "redenção". É Impressionante, assim, reparar que o documentário é extremamente competente em abordar uma provável sociopatia por parte do biografado, realçando o famoso charme de O.J (que utilizava disto para sair de qualquer situação), com uma compulsão crescente do protagonista em mentir, bem como toda a reconstrução do relacionamento de O.J. com Nicole em todas a violência a qual esta foi submetida (foram 62 ocorrências de abusos no nome de Nicole).
         O que acaba ficando no centro de tudo isso é a personalidade errante de Simpson, que por décadas afirmou “não sou negro, eu sou O.J.”, se negando a aderir a luta dos negros pelos direitos civis, aparecendo em programas de TV para justificar tal atitude - um ato que o filme salienta como um dos pontos pelos quais a sociedade racista branca incorporou O.J. como um ídolo, já que este era utilizado como não só em discursos meritocráticos durante a década de 60, como ainda foi cada vez mais estabelecido como uma entidade acima de qualquer perspectiva racial. Assim, o filme se aproveita de tal aspecto para abordar a hipocrisia da sociedade norte americana em seu discurso racista, que encarou o ex-ator O.J. como um pária instantâneo, contando com a inacreditável atitude da revista TIME de forçar o contraste na foto de capa do O.J. para que este parecesse “mais negro”. Aliás, “Made in America” é um filme que não poupa de críticas as mais diversas entidades envolvidas no caso, seja a procuradoria que investiu numa investigação capenga e falha em sua arrogância, ou mesmo na demagogia de advogados, mas principalmente no circo midiático que se instaurou no julgamento.
         Sendo uma narrativa ambiciosa, o documentário precisava se solidificar nas imagens de arquivo para contar suas histórias, e o filme não desaponta neste quesito, pelo contrário, ele surpreende em sua pesquisa minuciosa que conta com acessos à arquivos oficiais do caso, desde imagens de origem familiar, à gravações feitas pela polícia durante as ligações desesperadas de Nicole. Inclusive, é justamente com esta que o filme toma uma atitude corajosa ao mostrar as fotos da cena do crime e da autópsia que mostram as incisões feitas à facadas nos corpos de Nicole e Ronald Goldman  sem qualquer ressalvas, sem que com isso o filme soe exibicionista já que este consegue atrelar este ato como o provável caminho final de anos de violência doméstica. Ainda, a adesão dos mais diversos entrevistados (praticamente quase todos os indivíduos envolvidos com qualquer aspecto apresentado) é crucial para que argumentos de autoridade sejam estabelecidos no debate acerca dos temas.
        Tais tipos de decisões podem ser colocadas como os exemplos do porquê “O.J.: Made in America” funciona tão bem, pois o filme se estabelece numa estrutura convencional em seu roteiro para abordar de forma complexa e aprofundada temas muito difíceis. O documentário de Ezra Edelman (fiquem de olho neste rapaz!) é inteligente e coerente ao não abandonar a história de Simpson logo após seu julgamento, abordando o restante de sua vida para ressaltar a instabilidade mental que cada vez mais se aflorou no indivíduo, criando assim uma narrativa que consegue explorar de forma intrigante a própria identidade de quem foi Orenthal James Simpson, que passou de herói a vilão numa tragédia estarrecedora, ainda que completamente anunciada.





Excelente
Por Han Solo

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