domingo, 8 de maio de 2016

Crítica: "Zootopia: Essa Cidade é o Bicho"

Zootopia: Essa Cidade é o Bicho
(Zootopia)
Animação/Mistério/Drama
Data de Estreia no Brasil: 17/03/2016
Direção: Byron Howard e Rich Moore
Distribuidora: Disney/Buena Vista



Existe uma ironia patente entre o subtítulo de "Zootopia" e a abordagem que o filme faz de seus temas: enquanto o primeiro (montado de maneira preguiçosa) demonstra uma falta de confiança tremenda com seu público alvo de entender que se trata de uma cidade fictícia povoada por animais, o segundo é um estudo eficaz de formas de preconceitos naturalizadas numa sociedade que, independente de milhares de anos de evolução, tende a separar indivíduos e atitudes a partir de um determinismo biológico. Assim, temas complexos e intrigantes são embalados em uma animação que, lançada em circuito comercial, tem maior apelo com o público infantil, sempre com idéias que lançam “piscadelas” aos pais que acompanharão seus filhos ao cinema e, consequentemente, participam de sua educação.

Para tanto, o roteiro dá um show metafórico que atinge a qualquer um com seus simbolismos sem que com isso deixe de representar um passatempo efetivo. Girando em torno de um caso de desaparecimento de vários “predadores”, o filme conta a história de Juddy Hopps (Ginnifer Goodwin), a primeira coelha a se tornar policial e que desde pequena sonha em tornar o mundo um lugar melhor. Entrando de cabeça na investigação, a coelha acaba por contar com a ajuda da astuta raposa Nick Wild (Jason Bateman), deixando que filme então parta para uma abordagem de contrastes entre ambos personagens, enquanto seu relacionamento se desenvolve e o mistério se desenrola.
É fácil assim identificar todos os elementos de filmes de detetive e thrillers policiais que envolvem a trama. Parceiros disfuncionais, chefes de polícia teimosos e autoritários, além de um belo contraste de luz e sombras (advindo diretamente do cinema noir) são encontrados na projeção sem que com isso o filme soe referencial demais. Todos estes elementos são colocados na trama de maneira orgânica e inteligente sendo que o paralelo entre o cinismo de Wild e a esperança/ingenuidade de Hopps representam um embate sutil que, verbalizado sempre com maestria por excelentes diálogos, movem emocionalmente os personagens, fazendo com que estes se desenvolvam diante de nossos olhos criando uma conexão com o espectador.
O senso de humor do filme acaba ficando em segundo plano, mas nunca deixado de lado ou simplesmente utilizado de maneira preguiçosa. De fato é justamente uma sequencia envolvendo bichos preguiças que roubam o filme com o brilhantismo do roteiro e da técnica precisa de animação. Esta, por exemplo, é irretocável já que o mundo de “Zootopia” tem uma composição a partir de suas ambientações climáticas diferentes (como savanas e ambientes polares) além de adaptações de funcionalidade da cidade a partir do tamanho das criaturas – O bairro dos ratinhos, a utilização de tubos de transporte para Hamsters e as portas de diversos tamanhos presentes nos trens são um belo exemplo disso. A cidade é um deleite visual que faz jus a complexidade emocional presente em seus personagens.
E se cito “complexidade” novamente é porque este é o elemento que faz esta obra merecer um lugar de destaque nas premiações do próximo ano. A discussão sobre racismos e estereótipos vai desde a fala de nossa heroína sobre como “coelhos podem chamar outros coelhos de fofinhos, mas outros animais não”, num exemplo mais claro, até certa declaração de um personagem no final do segundo ato que revela um racismo naturalizado emitido justamente por um personagem que se mostra “esclarecido” quanto à preconceitos, tendo sofrido deles. Aqui o filme amplia seus horizontes muito além do que as mentes que acreditam em racismo inverso poderiam admitir. Contudo, deve-se alertar para que o espectador não faça uma projeção direta dos personagens para o “nosso mundo”, já que o filme utiliza de elementos próprios de sua sociedade para exemplificar elementos na nossa, não possuindo uma estrutura idêntica, mas semelhantes – Tentar separar raposas e coelhos diretamente como negros e brancos, por exemplo, seria um erro que simplificaria muito a idéia do filme.
Elogios rasgados à parte, deve-se criticar uma certa fragilidade narrativa ao roteiro utilizar de um elemento por três vezes ao longo do filme para solucionar seus problemas , além de obter uma estrutura de caso parcialmente solucionado e "revelação final". Contudo, a obra conta ainda com uma música que certamente concorrerá a prêmios e que, na voz de Shakira, comenta perfeitamente a obstinação da personagem principal com uma melodia extremamente grudenta (ainda estou cantando ela enquanto escrevo esta crítica). Lançado a mais de um mês, “Zootopia” é uma obra tão divertida e intrigante que merece uma crítica escrita mesmo que com atraso. Seus temas e personagens têm o potencial de ensinar tanto crianças quanto adultos... Na verdade, principalmente estes. 






Excelente
Por Han Solo

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