quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Crítica: "Capitão Fantástico"

Capitão Fantástico
(Captain Fantastic)
Data de Estreia no Brasil: 22/12/2016
Direção: Matt Ross
Distribuição: Bleecker Street Media


    Por mais decepcionante que o cinema mainstream esteja sendo neste ano de 2016, sempre há a esperança de assistir filmes excelentes e originais, basta ficar atento aos chamados indie movies. Filmes independentes são sim feitos pela mesma indústria e sistema responsável pela produção do restante dos filmes, não há como fugir disso. No entanto, a ausência de uma ligação com um grande estúdio e um orçamento reduzido conferem maior liberdade para que os produtores possam expor suas ideias sem a necessidade manifesta de pensar em questões de mercado. O Festival de Sundance tornou-se praticamente um oásis para estes produtores independentes, que levam seus filmes e os exibem esperando que uma produtora compre os direitos de exibição. Tal produtora tem o direito apenas de exibir o filme pronto, não reeditar ou modificar nada do material finalizado. É dessa maneira que estes filmes produzidos com baixíssimo orçamento conseguem atingir um público maior sem perder sua essência

“Capitão Fantástico” é um grande exemplo disto. Contando com a força de um rosto conhecido como o de Viggo Mortensen (que sempre escolhe muito bem seus papéis), o filme foi uma das produções que mais chamou a atenção do público e da crítica durante a edição do festival neste ano, conseguindo dessa forma um contrato para uma distribuição mundial mais ampla. Experimental em muitos sentidos, “Capitão Fantástico” narra a história de Ben Cash e de sua família, que praticamente criaram uma sociedade aparte da norte-americana, vivendo na natureza e recebendo educação a partir de livros e dos ensinamentos de Ben. O filme começa quando Ben descobre que sua esposa Leslie, que havia se afastado da família para receber tratamento médico, está morta. Recebendo esta notícia, a família Cash vai até a cidade natal de sua mãe buscando o direito de despedir-se de Leslie seguindo as instruções que havia deixado em seu testamento.
“Capitão Fantástico” é um daqueles filmes difíceis de serem encaixados em qualquer espécie de gênero de filmes. Porém, ele tem um elemento bastante claro de road movie, funcionando como uma espécie de híbrido entre outro clássico indie “Pequena Miss Sunshine” (2006) e uma produção grega extremamente experimental, que certamente recomendo, chamada “Dente Canino” (2009). Diferentemente da maioria dos filmes, não há em “Capitão Fantástico” uma premissa clara que mova a narrativa do começo ao fim, tampouco há algum tipo de grande objetivo a ser alcançado pelos personagens no terceiro ato. O que o filme se propõe a fazer é explorar e desenvolver os personagens que cria, utilizando os conflitos gerados pela trama como mero contexto para fazê-lo. O grande objetivo proposto pelo filme é entender como esta família diferente vive, quais seus princípios e ideais, o que os motiva e quais são os problemas gerados pelo tipo de vida que optaram por levar. Tudo isso é feito com maestria.
A clara problemática que o filme se propõe é a de avaliar a possibilidade da concretização de tal isolamento em nossa sociedade atual, e pressupondo sua existência, compreender as estruturas e os elementos de seu funcionamento. Para tanto, é crucial que exista uma verossimilhança em tudo aquilo, é necessário que todos os atores envolvidos tenham uma grande sintonia para que consigam passar a impressão de uma sociedade viva e funcional. E este é justamente um dos grandes méritos de “Capitão Fantástico”: grandes atuações e um roteiro recheado de diálogos intrigantes e criativos fazem com que tudo que vemos na tela pareça extremamente “vivo”. Cada um dos personagens mostrados  tem uma personalidade única e, apesar de o filme não conseguir definir um arco narrativo e conflitos internos para todos eles, sentimos grande empatia por eles enquanto conjunto e, como em “Pequena Miss Sunshine”, somos convencidos a fazer parte daquela família por alguns minutos.
"Capitão Fantástico não é, no entanto, uma comédia. Há sim uma série de momentos genuinamente engraçados, mas não é este seu maior propósito. A morte  da mãe é a mola que impulsiona os personagens em sua jornada, e é também este acontecimento que estabelece o tom do que se desenrola posteriormente. Produzindo o choque entre a sociedade à parte dos Cash e a sociedade "normal" norte-americana, “Capitão Fantástico” gera tanto humor quanto problemas. Ben é um personagem extremamente complexo e são suas angústias como pai e viúvo que nos carregam através da história. Se já é difícil tomar decisões por seis crianças com a presença de outras instituições como a escola, fazê-lo enquanto lida com a decisão de viver em completo isolamento é ainda mais complexo. Após a morte de Leslie, Ben é sozinho responsável por todas as decisões no que diz respeito a seus filhos e este peso junto com o impacto dos confrontos entre o que criou para seus filhos e o “mundo lá fora” é extremamente visível na complexa e excelente atuação de Viggo Mortensen.
Falta para “Capitão Fantástico”, entretanto, uma dose maior de dramaticidade. Os conflitos propostos pelo roteiro parecem por vezes insubstanciais e pouco ameaçadores, fazendo com que o temor pelo bem-estar dos personagens seja menor do que deveria. Há em alguns momentos a impressão de que os roteiristas se envolveram tanto com os personagens e torceram tanto para que fossem bem-sucedidos que tornaram-se incapazes de lhes apresentar um conflito mais concreto. Porém, o envolvimento com a história é tão forte por parte do público que só nos damos conta deste problema algum tempo depois que o filme já acabou. Para esta “distração” promovida pelo roteiro é essencial a criação de uma estética muito original. Os figurinos e o design de produção são perfeitos em criar roupas e ambientes que se encaixam perfeitamente na personalidade dos Cash e do próprio filme. 
Uma paleta de cores vibrante e uma direção extremamente viva e cheia de amplos movimentos de câmera por parte de Matt Ross adicionam mais uma camada à pilha de elementos originais que é “Capitão Fantástico”, que junta-se ao também independente “Sing Street” como um dos melhores, mais originais e memoráveis filmes de 2016. Ainda bem que podemos recorrer ao cinema independente.


Excelente

Por Obi-Wan

Nenhum comentário:

Postar um comentário