sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Crítica: "Beasts of No Nation"

Beasts of No Nation
Drama/Guerra
Data de Estréia: 16/10/15 (Netflix)
Direção: Cary Joji Fukunaga
Distribuidora: Netflix


        A Netflix está aos poucos abocanhando vários mercados do entretenimento. Em 2013 o serviço lançou em seu catálogo "House of Cards", aclamada série que fez história no Emmy ao ser a primeira produção de um serviço de streaming a ser indicada e ganhar o prêmio mais importante da televisão. Além disso, a Netflx já vem há alguns anos produzindo documentários e filmes de baixo orçamento. O que estava faltado no catálogo de produções próprias da empresa era um filme mais expressivo, capaz de carregar seu logo para as grandes premiações do cinema. Da mesma forma que "House of Cards" chegou fazendo enorme barulho no mundo da televisão, "Beasts of No Nation" atraiu muita atenção do público desde seus primeiros trailers, que prometiam uma grande produção com uma história pesada e comovente. Após assistir o filme, confirmo todas as expectativas que tinha a seu respeito. "Beasts of No Nation" é praticamente um murro no estômago,um filme que traz em sua história espaço para inúmeras reflexões extremamente perturbadoras.

        "Beasts" conta a história de Agu, menino de uma nação africana não nomeada no filme, forçado a amadurecer de maneira brutalmente rápida sob as exigências de uma violenta guerra que divide seu país. A ausência de localização direta da narrativa do filme em um específico país serve para evitar conflitos com acontecimentos reais, ao mesmo tempo que generaliza os problemas que apresenta. Na minha visão, os acontecimentos demonstrados no filme podem ser localizados em qualquer região em estado de constante guerra. Não é difícil imaginar que qualquer soldado que não conhece limites morais se aproveitaria da situação desesperadora de meninos como Agu para transformá-los em soldados de uma guerra que eles não escolheram travar.
              A acertada abordagem do filme em relação a esse delicado tema é certamente seu ponto mais alto. O roteiro do filme faz a correta opção de começar o filme retratando Agu como apenas mais uma das milhões de crianças do mundo, brincando com seus amigos e convivendo com sua família. Com isso estabelecido, é impossível não criar uma empatia direta com o personagem, tornando muito mais difícil, no bom sentido, acompanhar todos os duros acontecimentos que obrigam o menino a se tornar homem em questão de dias. Além de ser separado da mãe, Agu é obrigado a assistir seu pai e seus irmãos serem assassinados pelo exército, enquanto foge tentando salvar sua própria vida. Como já comentei anteriormente, é impossível não se importar imediatamente com a história de Agu, muito por conta de uma performance excelente e muito carismática do protagonista, Abraham Attah, que mostra uma incrível capacidade para lidar com tamanha carga emocional que o personagem exige. O elenco é aliás outro destaque em "Beasts of No Nation", que conta ainda com uma inspiradíssima atuação do ótimo Idris Elba, na pele do egocêntrico "Commandant". Tal personagem desempenha importante papel no desenvolvimento do personagem de Agu, me lembrando muito em vários momentos o memorável personagem de Marlon Brando em "Apocalypse Now".
          Ao pesquisar a ficha técnica do filme para escrever essa crítica, mal pude acreditar no número que encontrei para seu orçamento. É realmente impressionante a altíssima qualidade da produção criada para o filme com a modesta verba de 6 milhões de dólares, principalmente considerando-se que o pano de fundo do filme é uma guerra. O trabalho de direção de Cary Fukunaga ("True Detective") é mais uma vez genial, dando às câmeras a exata sensação de crueza exigida pelos acontecimentos da trama. Porém, é interessante observar o contraste criado entre esse aspecto de direção e roteiro e a belíssima fotografia do filme, que cria cenas plasticamente belíssimas, principalmente as que envolvem paisagens naturais.
           "Beasts of No Nation" tem pouquíssimos erros, mas um desses acaba por influenciar muito negativamente. Fica claro desde o começo que o centro da narrativa do filme será o arco de seu personagem principal Agu, o que funciona muito bem no filme. Porém, senti a falta de um outro "norte" para o filme, uma história geral mais bem orientada que movimentasse melhor a trama e o arco do personagem. A história do grupo militar do qual Agu faz parte nunca parece que vai chegar a algum lugar, dando a sensação de que não tem um propósito bem definido, dando inclusive uma sensação de que o filme está se arrastando demais em alguns momentos. Porém, isso não tira o grande mérito de "Beasts of No Nation", que trata magistralmente de um dos temas mais delicados do nosso mundo atual. Já que citei "Apocalypse Now", termino esta crítica com uma comparação entre os dois filmes. Se já é desconcertante acompanhar a transformação e perturbação do personagem de Martin Sheen durante a Guerra do Vietnã, imagine o quão chocante é ver isso acontecendo com uma criança. Por isso repito: "Beasts of No Nation" é muito mais que uma comovente história sobre amadurecimento, é um verdadeiro tapa na cara.






Ótimo

Por Obi-Wan

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