Drama/Guerra
Data de Estreia no Brasil: 24/12/2015
Direção: Justin Kurzel
Distribuição: Diamond Films
Com milhares de adaptações para o teatro, literatura e para o cinema, as obras de Shakespeare são sempre um potencial para se estudar o período que seus inscritos foram feitos (assim como também os que eles retratam), além de sempre traçarem paralelos brilhantes para qualquer período da história da humanidade que, envolta de violência, cobiça e medo, sempre se mostrou aberta para a interpretação poética da obra atemporal do Bardo.
Dessa
forma, adaptar uma peça como MacBeth não é traçar um caminho fácil. E como
poderia ser? História conhecida e presente no imaginário coletivo, a peça é um
estudo da cobiça da glória e do próprio questionamento do destino imposto (?)
ao homem. A loucura paranóica e a auto-degradação são pontos chaves da tragédia
de MacBeth. Aquele que, após ter recebido o presságio de três oráculos de que
seria o rei da Escócia, resolve tomar em suas próprias mãos o destino e, com a
ajuda de planejamento de sua esposa, executa seu primo que era dono do trono.
Tendo
o material sólido e brilhante do escritor inglês, esta adaptação do diretor Justin
Kurzel se constrói essencialmente no visceral e na mais pura estilização. Se
por um lado o campo de batalha quase chega a brotar do seu cheiro fétido e
gosto amargo de sangue, as cenas também tomam tons oníricos que por vezes
salientam o estado de espírito/mental do protagonista. Intercala-se mortes e
batalhas tão próximas e cruas com montagens e utilização de fumaça de forma
extremamente gráfica.
O
filme de Kurzel aposta nos diálogos do próprio Shakespeare sobrepostos a
linguagem do cinema moderno para entregar velhos temas numa embalagem nova e
surpreendentemente eficiente. Assim, o longa pode deixar que as próprias
palavras do bardo, belas e poderosas, estabeleçam os temas centrais da peça: ao
ouvir a previsão de seu destino a próprias ações de MacBeth é que o levam a
caminhar por este. O destino seria imposto por si próprio ou uma construção que
essencialmente se dá pelo fato do ser humano ser uma criatura que teme e
antecipa um fim fora de seu controle?
Com
um potencial de desenvolvimento temático tão poderoso, a interpretação deste “MacBeth:
Ambição & Guerra” aposta em fumaças das mais variadas cores e texturas para
criar o clima específico para cada sequencia (e o uso do verde e do amarelo no
início do filme, numa conotação sobrenatural, se contrapõe ao cinza, que cria
um clima claustrofóbico até mesmo em planos abertos, e o vermelho que se
estabelece na sequencia final), sendo a fotografia de Adam Arkapaw uma
experiência visualmente bela e intensa em seus simbolismos.
Mas
não é só, Kurzel ainda transita bem em suas escolhas técnicas ao utilizar da
câmera na mão para momentos mais íntimos, passados dentro das tendas e quartos
dos personagens, e stadycam e travellings quando em locais públicos, explorando
assim com elegância a dualidade das personalidades que se apresentam na tela
(elegância essa que faz falta no prólogo escrito em vermelho no início da
projeção), trazendo ainda o expectador para fazer parte dos detalhes e
testemunhar a loucura crescente do rei MacBeth.
Loucura
crescente que ao menos em parte é muito bem explorada por Michael Fassbender
(que acredito estar numa disputa com Oscar Isaac para ver quem tomará Hollywood
antes). Compondo o protagonista como um homem com potencial para o bem que se
vê corrompido pelo desejo, o MacBeth de Fassbender se mostra introspectivo e, a
medida que o filme avança, cada vez mais perigoso em sua obsessão, ainda que
com um toque de medo da frustração do destino, culminando no famoso monólogo da
adaga o qual, pela obra shakespeariana e atuação magnífica, é um dos melhores
momentos do filme (se não o melhor). É mesmo uma pena que a partir de certo
ponto o ator alemão beire o overacting e não se desenvolva tanto pelo resto da
narrativa.
Outra
que faz um trabalho muito bom (talvez melhor que o do colega) é Marion
Cotillard. Trazendo toda a aura “manipuladora” e tão obsessiva quanto o marido,
a interpretação de Cotillard é intensa e mais sutil que a de Fassbender, sendo
que a atriz ainda traz uma carga de humanidade numa personagem que na maioria
dos casos é relegada ao estereótipo de vilã maniqueísta. E a cena do monólogo
do sangue nas mãos é brutal pelo desempenho e desenvolvimento da atriz durante
um único longo take.
E
como não podia deixar de ser, a direção de arte faz um trabalho crucial para
que o filme possa convencer em suas ambientações temporais e geográficas. As representações
de igrejas, fortalezas e acampamentos são um show a parte mesmo que envoltas de
tanta névoa e expostas em locações escolhidas com brilhantismo. O interior dos
cenários é primoroso nos detalhes (note como a cama do casal real está sobre um
tapete vermelho que remete ao sangue e com lençóis vermelhos e dourados em
outra metáfora maravilhosa do sangue e poder). A Maquiagem é outro ponto primoroso
por investir na sutileza desde os olhos pintados de verde
de Lady MacBeth (que remetem à fumaça da cena dos oráculos) até as cicatrizes
no rosto do protagonista que consegue de forma simples e eficiente trazer mais
realismo para o personagem.
“MacBeth: Ambição & Guerra” é um filme que
teve em mãos o melhor material humano e técnico possível para fazer uma ótima
adaptação e o faz. Sua estilização pode chamar mais atenção do que os conflitos
da história, mas ainda assim é um sinal de que não só o cinema é capaz de se reinventar
por caminhos e histórias já traçadas, como também que a obra do Bardo está além
dos efeitos do tempo.
EXCELENTE
POR HAN SOLO
POR HAN SOLO
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